Património Arqueológico
A Serra de Passos
Buraco da Pala
A Escarpa do Buraco da Pala, que se eleva na paisagem devido à sua altitude, alberga o Abrigo do Buraco da Pala. O acesso ao Buraco da Pala é viabilizado por um caminho florestal que tem início na aldeia de Passos, no concelho de Mirandela, distrito de Bragança, e que sobe o esporão até à zona das antenas. A partir deste ponto, o percurso prossegue por um caminho pedonal que contorna o monte pela direita. O Buraco da Pala constitui um abrigo de grandes dimensões, aberto no maciço quartzítico, numa vertente rochosa situada a 880 metros de altitude, na encosta este de um esporão implantado na extremidade da serra, com ocupação humana desde o Neolítico antigo regional até ao Calcolítico.
Neste local, com um excelente domínio visual da paisagem envolvente, foram realizados trabalhos de escavação arqueológica entre 1986 e 1990, sob a direção científica da Professora Doutora Maria de Jesus Sanches. Os trabalhos de escavação revelaram quatro níveis de ocupação, sendo o mais antigo — nível IV — caracterizado por uma ocupação doméstica de comunidades neolíticas de tradição mesolítica, iniciada na primeira metade do V milénio a.C. e estendendo-se até ao terceiro quartel do IV milénio a.C. O nível III corresponde, da mesma forma, a uma ocupação doméstica, possivelmente sazonal, situada cronologicamente entre o último quartel do IV milénio a.C. e o início do III milénio a.C. Os níveis II e I correspondem a um intervalo de tempo entre 2800 e 2500 a.C., durante o qual este local foi ocupado por comunidades como espaço de armazenamento (Sanches, Pré-história recente de Trás-os-Montes e Alto Douro, 1997).
Na parede lateral direita à entrada do abrigo, um nicho com uma imagem sagrada testemunha a sacralização do local, onde se encontram três painéis de arte rupestre: dois no “corpo do abrigo”, situados na sua parede direita (parede norte), e um terceiro na parede do fundo da galeria rochosa. O primeiro painel exibe três figuras bastante desgastadas. Uma delas corresponde ao motivo X (antropomorfo em phi muito estilizado), motivo XVII, e a outra, igualmente esquemática, é igualmente bastante apagada. O segundo painel, junto à entrada do abrigo, exibe dois motivos em barra bastante deteriorados. No fundo da galeria, encontra-se outro pequeno motivo em barra (I).
Escarpa do Buraco da Pala
Adicionalmente, foram detetados mais três abrigos na Escarpa do Buraco da Pala: o Abrigo 1, o Abrigo 2/3 e o Abrigo 4, situados no troço mais elevado, entre os 940 e os 880 metros de altitude. O Abrigo 1 consiste num painel vertical localizado na extremidade oeste da crista quartzítica, sob o cruzeiro (atalaia medieval), apresentando um conjunto de três motivos esquemáticos pintados de vermelho-vinhosa. No topo, observa-se uma linha serpentiforme (em “M”); na parte média do painel, dois (ou mais) pontos/restos de pintura; e mais abaixo, três linhas sub-horizontais. Os abrigos 2/3 e 4 consistem em dois grandes abrigos, no sentido literal do termo, orientados para sul, situados ligeiramente acima da curvatura onde se abre o Buraco da Pala, sendo o abrigo 4 o mais próximo daquela abertura. O abrigo 2/3 tem um vestíbulo (2), que dá acesso a uma fenda mais profunda (3).
A parede leste da entrada da fenda (abrigo 3) exibe manchas avermelhadas que parecem delinear um motivo. No exterior, na parte oeste da fenda (abrigo 2), encontra-se um pequeno painel vertical com um único motivo: um “pentiforme” de cor vermelho-vinho (III). No abrigo 4, foram identificados três painéis, dois dos quais localizados na parede oeste da parte mais funda (painéis 1 e 2) e um na parede leste (painel 3). O painel n.º 1 apresenta um motivo bastante apagado, de cor alaranjada, semelhante a uma mancha. O painel n.º 2 exibe dois motivos de cor vermelho-vinho, alinhados verticalmente, possivelmente pentiformes (III). O painel n.º 3 apresenta outro motivo “pentiforme” (III) (Sanches, Morais & Teixeira, Escarpas rochosas e pinturas na Serra de Passos/Santa.
Abrigos das Margens do Regato das Bouças
Na área circundante do Buraco da Pala, foi identificado um conjunto de sítios de pintura esquemática da Pré-História recente, com mais de três dezenas de abrigos e cerca de oito dezenas de painéis pintados com cores como o vermelho-vinhoso, o vermelho-claro, o laranja e o amarelo. A cronologia mínima para a fase inicial da criação dos abrigos pintados da Serra corresponde ao início do IV milénio a.C.
No entanto, é provável que as pinturas sejam mais antigas, nomeadamente aquelas que, pela primeira vez, marcaram a paisagem da Serra e traçaram percursos entre os sítios inscritos na memória social. Esta hipótese é fundamentada nas datas absolutas de C14 do meio do V milénio, obtidas para as ocupações do Buraco da Pala (Sanches, Pré-história recente de Trás-os-Montes e Alto Douro, 1997).
Na escarpa da margem esquerda do Regato das Bouças, predominam os abrigos com painéis que apresentam figuras antropomórficas de configuração “oculada” sob a forma de figuras de corpo inteiro, algumas das quais representam apenas as faces, enquanto outras exibem antropomorfos oculados de grande complexidade. Maria de Jesus Sanches designou esta escarpa como “Escarpa das figuras oculadas”, uma sequência de painéis/abrigos com, pelo menos, duas dezenas de figuras oculadas.
Na escarpa da margem direita do Regato das Bouças, foram identificados sete abrigos: 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. O conjunto de abrigos localizado na margem esquerda do Regato das Bouças abrange os abrigos identificados com os números 1, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17 e 18. Segundo Sanches, o Núcleo das Escarpas do Regato das Bouças pode ser compreendido como um percurso onde, ao longo do tempo, se estabeleceu uma relação espacial entre os locais, ordenada pela “capacidade simbólica” e de memória coletiva de cada um dos lugares em relação aos restantes (Sanches, Morais & Teixeira, Escarpas rochosas e pinturas na Serra de Passos/Santa Comba (Nordeste de Portugal), 2016, p. 84).
O Abrigo 2 do Regato das Bouças é um abrigo em quartzito onde foram identificados 12 motivos pintados de caráter geométrico/abstrato, antropomórfico e idoliforme. Localiza-se na margem direita do regato, voltado para o seu curso, logo após a primeira curva da estrada florestal que dá acesso à aldeia dos Passos e ao Cruzeiro. Foi descoberto em 1989, durante as escavações arqueológicas no Abrigo do Buraco da Pala.
Tipologia dos motivos figurativos I a XVIII
A Escarpa do Buraco da Pala, situada na serra de Mirandela, destaca-se pela sua altitude e pelo Abrigo do Buraco da Pala, um refúgio natural escavado em quartzito a 880 metros. O acesso faz-se por um caminho florestal que parte da aldeia de Passos e segue até à zona das antenas, continuando depois por um trilho pedonal.
I) barras paralelas simples;
II) barras atravessadas longitudinalmente por um traço regular ou irregular;
III) barras unidas por um traço perpendicular (“pentiformes”);
IV) figuras geométricas de tendência subretangular;
V) figuras em “favo de mel”, de ângulos internos arredondados;
VI) grupos de linhas quebradas paralelas;
VII) pontos pintados formando alinhamentos, figuras geométricas/retângulos, ou somente agrupamentos;
VIII) marcas dos 5 dedos da mão;
IX) arboriformes variados;
X) antropomorfo em phi muito esquemático;
XI) conjunto diverso de figuras geometrizantes de difícil descrição;
XII) esteliformes;
XIII faces oculadas;
XIV) figuras oculadas de corpo inteiro;
XVI) antropomorfos de braços erguidos, ou descaídos, com penachos;
XVII) motivo X (antropomorfo em phi muito estilizado).
XVIII) figura circular de cor vermelho vinhoso inscrito num círculo negro.
Legenda-Quadro dos motivos mais representativos dos abrigos da Serra de Passos