Lenda do Rei de Orelhão
A valorização das tradições orais é importante para compreendermos a perceção que as comunidades rurais têm dos lugares e da paisagem. O significado múltiplo dos sítios arqueológicos para as comunidades locais manifesta-se ao longo do tempo na toponímia e nas lendas. Estes significados podem ser compreendidos através da investigação etnográfica. A perceção do passado pelas pessoas no presente é um tema comum que interessa tanto à arqueologia como à antropologia. Neste projeto, a incorporação das vozes locais constituiu uma preocupação. A verdadeira socialização do património cultural, tanto material como imaterial, efetiva-se através da relação com as comunidades. A relação entre o passado e o presente e a interpretação dos sítios arqueológicos da Serra foram considerados de forma a compreendermos a relação entre os habitantes locais e os sítios arqueológicos conhecidos na Serra, como é o caso do abrigo conhecido por “Casinhas de Nossa Senhora”, renomeado por Maria de Jesus Sanches, abrigo n.º 3 do Regato das Bouças. No ponto mais alto da Serra de Passos/Santa Comba-Garraia, o Pico de Santa Comba, encontra-se o Santuário de Santa Comba. Todos os anos, no dia 8 de agosto, realiza-se neste espaço uma festa religiosa em honra da santa que dá o nome à serra. Esta peregrinação e romaria anuais têm por base a lenda de Santa Comba dos Vales.
Segundo Sanches (2007, Lenda de Santa Comba e do Rei D’ Orelhão), a capela, a romaria e a lenda que lhe está associada têm um significado particular para as comunidades da Serra. A lenda de Santa Comba de Lamas de Orelhão passa-se num momento anterior à fundação da Nacionalidade, quando este território se encontrava sob domínio mouro. Foi recolhida pelo poeta e escritor António Ferreira (1528-1569), autor de A Castro, uma obra inspirada na vida trágica de Inês de Castro. António Ferreira casou em segundas núpcias com D. Maria Leite, natural de Lamas de Orelhão, no concelho de Mirandela, onde recolheu as memórias para a sua obra “História de Santa Comba dos Valles” (Ferreira, 1771). Comba era uma bela pastorinha que, juntamente com o irmão Leonardo, apascentava os seus rebanhos. Dotada de uma beleza tão rara, despertou rapidamente o interesse do rei mouro que reinava na região da Serra, que por ela se apaixonou perdidamente. No entanto, este rei mouro era grande, membrudo e feio, com uma orelha de asno e outra de cão, e era conhecido como o Orelhão.
A pobre pastorinha tremia de terror a pensar no Rei Mouro. No seu desespero, a doce Comba implora a Deus a sua ajuda para permanecer pura e casta:
Não sou minha, meu Deus, toda sou Vossa, fazei que para Vós guardar me possa.
O Rei Mouro, perdido de desejo ameaça a pobre pastorinha:
Eu sou teu Rei, tu és minha cativa
Sê tu senhora, que eu serei cativo
Não t`é melhor seres rainha e viva
Que arderes cruelmente em fogo vivo?
Indiferente às súplicas e ameaças, Comba refugia-se mais na dedicação a Deus. Ferido no seu orgulho, o Rei Mouro persegue a pastora de lança em riste. Perseguida e encurralada entre lança e um penedo, a pastorinha implora o auxílio dos Céus. Miraculosamente, a fraga abre-se, recolhe a pastorinha e fecha-se numa manifestação do poder Divino:
(...) Ó Maravilha grande! Abriu-se pedra
Obedece à Santa a rocha dura,
Obedeceo à santa e abriu-se a pedra,
E defendeu-a da cruel ventura.
Enraivecido, o Rei Mouro vinga-se no inocente irmão de Comba, estripando-o e lançando-o a um charco. António Ferreira assegura que a ferradura do cavalo com que o Rei Mouro perseguiu a pastorinha, bem como a lança com que matou Leonardo, ficaram marcadas na fraga, e a água em que foi lançado o corpo de Leonardo tornou-se numa fonte milagrosa:
(...) E a fértil chã terra, que ocupava
Aquele monstruoso e cruel pagão
Que outros claros Senhores esperavam,
Inda se chama Lamas de Orelhão!